Meu pai, minha mãe: dica de leitura na quarentena


Acabei de ler o livro Meu pai, minha mãe, do escritor israelense AharonAppelfeld (1932-2018). Com tradução do professor de literatura hebraica e judaica na Universidade de São Paulo (USP) Luis S. Kraus, a obra publicada pela editora Carambaia, em 2019, tem um ótimo acabamento. Appelfeld volta à infância para construir uma narrativa da chegada da Segunda Guerra Mundial, e mais do que isso, do Holocausto, no leste europeu. O romance é todo ambientado nas margens do rio Pruth, onde desfilam os personagens que marcaram aquelas que seriam as últimas férias de verão dele ao lado do pai e da mãe.

Creio que a infância marca de forma significativa a vida de muitos de nós, seja por eventos bons, ou ruins, que ficam guardados na nossa memória e que ajudam a construir nossa personalidade e identidade. Eu, particularmente, gosto muito de livros que remontam fatos que marcaram a infância do autor. E Appelfeld fez isso com muita propriedade. Não tive como retornar a muitos episódios da minha infância lá nas brenhas de Santa do Acaraú. Mas agora, eu quero falar da escrita do autor, ainda pouco conhecido no Brasil. Eu mesmo fiquei surpreso com a quantidade de livros que publicou, a maioria, tratando da sua infância.

                                                           Meu pai, minha mãe/reprodução

Os eventos da infância estão tão presentes na obra de Appelfeld, que podemos concluir por isso, que ele valoriza tanto, esse período da vida. Por outro lado, não podemos esquecer que ainda na infância ele conheceu o lado mais amargo da vida, a perseguição inclemente de Hitler aos judeus. Para o autor, as viagens que faz pela sua escrita, ele sempre retorna ao aconchego da casa dos pais e dos avós, nas montanhas dos Cárpatos, porque, “são lugares fixos, minhas visões perpétuas, e volto a elas para lhes emprestar vida nova”.

De acordo com Kraus, a sobrevivência de Appelfeld foi um desafio as probabilidades, pois quando tinha 8 anos, testemunhou a morte da mãe dele em Czernowitz, Romênia, hoje Ucrânia, logo após a chegada dos alemães nazistas à cidade em 1940. Deportado com o pai para um campo de trabalhos forçados, ele conseguiu fugir, e passou a guerra se escondendo entre camponeses e ucranianos. Quando o conflito mundial terminou, ele tinha 13 anos e foi levado para um campo de refugiados na Itália e de lá para a Palestina britânica, seis anos depois.

É interessante observar, que a literatura de Appelfeld, como ressalta o tradutor no posfácio, “reconstrói em palavras aquilo que foi varrido da face da terra pelo genocídio na Europa”, bem como o projeto nacional do Estado de Israel que visava relegar ao esquecimento. Por isso, Appelfeld se agarra tanto às reminiscências infantis. É lá que está guardado o mundo judeu da Europa central do qual fez parte, recriado por ele, “em língua hebraica, um universo existencial desaparecido”. É assim, que ele resiste e protesta contra a catástrofe que marcou a humanidade naquele período.

A narrativa de Appelfeld tematiza o estranhamento do homem diante do incompreensível, como ressalta Kraus, mas mais pelos silêncios observados na sua obra, ou seja, pelo que não fala explicitamente. Assim, são percebidos, os movimentos de reconstrução do sentido de nação do povo judeu, bem como a sua situação diaspórica.

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