E ninguém cala....


Sérgio Pugliese é um amigo que fiz no jornalismo, no Rio de Janeiro, na época que trabalhei no O Globo, na década de 1980. Falávamo-nos diariamente, mais por telefone, sabíamos tudo que acontecia na cidade, principalmente na área policial. Um gigante no tamanho, coração e talento. Reencontrei Pugliese no face como grande parte dos amigos cariocas. Descobri um projeto fabuloso tocado por uma pessoa da sua dimensão, o Museu da Pelada, site, canal no YouTube, espaço que resgata a memória de muitos craques e personalidades do futebol, além de muitas resenhas gostosas sobre boleiros. Vendo um encontro promovido por ele, entre Agnaldo Timóteo e Paulo Cesar Caju, dois personagens identificados com a história do Botafogo, não resisti e pedi para compartilhar aqui nesse blog, o belíssimo texto e a foto do encontro, que ficará na moldura de todo botafoguense como eu.
   
E NINGUÉM CALA.....


PC Caju e Agnaldo Timóteo já viram a morte de perto, enfrentaram o racismo, ganharam muito dinheiro, colecionaram carrões e encantaram multidões. Topo, poço, poço, topo, venceram, perderam, mas, mesmo nas derrotas, a voz de ambos seguiu inabalável, poderosa. Nem álcool, cocaína e um AVC foram capazes de frear essa potência vocal. Amados e odiados, nunca mediram palavras para exporem suas opiniões. Chutadores de balde profissionais, encrenqueiros, marrentos, brigões. Botafoguenses! Quando Caju vivia seu inferno-etílico-astral, pior momento da vida, mergulhado nas drogas, Agnaldo estendeu-lhe a mão, assim como já havia feito com Marinho Bruxa, Garrincha, o goleiro Barbosa e tantos outros. Caju safou-se. Hoje vive cada dia. Assim como Agnaldo, não guardou nada dos tempos de glória, flâmulas, bandeiras, uniformes, jornais. Agnaldo vendeu milhões de cópias de discos, mas nenhum está em suas prateleiras, perderam-se ao logo do tempo. “Tá no Youtube”, resumiu. “Os meus gols, também”, gargalhou Caju. O Museu da Pelada quis reuni-los assim que PC soube que o amigo “estava nas últimas”, afinal era o que vinha sendo noticiado. Além disso, suas fotos no, olha ele aí, Youtube não eram animadoras, mostravam um homem debilitado, barbado, triste. “Me deram como morto”, confirmou Agnaldo.
No carro, a caminho do encontro, PC emocionou-se algumas vezes ao lembrar do amigo no auge do sucesso. Mas riu quando recordou a famosa briga de Agnaldo com Osvaldo Nunes, outro cantor bom de sopapos. “Durou mais de uma hora”. Quando entrou na sala, Agnaldo estava sentado no sofá. Era um encontro surpresa. A emoção foi tão grande que Agnaldo dispensou o andador, aparelho que tem o amparado desde que recebeu alta. Após um caloroso abraço, Caju quis saber: “Firme?”. Encararam-se em silêncio. “Firme?”, quis saber Agnaldo. Firmes!!! Com certeza, firmes!!! Há poucos meses, Agnaldo respirava com ajuda de aparelhos, mas o cara é bom de briga. Saiu do hospital rouco e cheio de recomendações, mas para provar sua total recuperação respirou fundo e trouxe lá das profundezas do pulmão e da alma, a estrondosa voz que ninguém irá calar....”boemia, aqui me tens de regresso...”.


                                          Pugliese (E), Agnaldo Timóteo (C) e Paulo César Caju ((D)

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